
[Lisboa, 18 de Outubro de 2024]
Inicialmente as aulas estavam marcadas para o 11 de Outubro. Ainda era o tempo de Setembro ser o mês dos exames de recurso. Compareci à hora marcada mas não houve aula. Como alguém nos explicou, naquela semana os professores não compareciam porque aproveitavam para ir a congressos. Que não contasse com mais nenhuma aula naquela semana que não valia a pena. Talvez na seguinte começassem algumas disciplinas.
Na semana seguinte apresentei-me novamente. Lembro-me que havia imensa gente à porta do Anfiteatro 2 para a primeira aula de Paleografia. Não fazia ideia do que tratava a disciplina. Muita gente a fumar (ainda se fumava nos corredores), recordo-me em particular de um cheiro forte a cigarrilha que me acompanhou todos aqueles anos – soube mais tarde que era do Carlos.
Aquela primeira aula foi inesquecível. Não que tenha acontecido algo de extraordinário, mas era a primeira aula. Bernardo Sá Nogueira fazia valer a sua alta envergadura e o cabelo cuidadosamente puxado à retaguarda para colocar respeito na sala durante duas horas. Decidiu começar por debitar um conjunto de regras de inspiração marcial e recomendar no fim a compra do Abre-Viaturas do prof. Borges Nunes e de um pesado caderno de diplomática – que de resto ele sabia de cor. E atirou em jeito de aviso: "quem não sabe latim, nesta disciplina já vai sair prejudicado". Confesso que pensei que todas as aulas da licenciatura iriam ser sempre pautadas pela rigidez que se impunha a uma faculdade centenária. Não foram. Nem as de Bernardo Sá Nogueira, que revelou ser, de longe, um dos melhores daquela casa.
Passou já algum tempo e não tive até hoje um segundo de arrependimento por ter decidido estudar história. Foi uma caminhada curta (hoje apercebo-me disso), tive excelentes momentos, brilhantes professores e bons amigos.
Aquele final de tarde de Outono foi o começo de um dos períodos mais felizes da minha vida.
Eram dezoito horas, do dia dezoito de Outubro de Dois MIl e Quatro. Passam hoje vinte anos.