Sexta-feira, 2 Janeiro, 2026

Por este caminho. Origem e progresso do metodismo em Portugal no século XIX. Umas páginas da história da procura da Liberdade Religiosa, de Albert Aspey

Decorria o ano de 1880 e Guilherme Dias, pastor metodista, dirigiu-se à Biblioteca Pública Municipal do Porto para oferecer um conjunto de livros da autoria do missionário William Harris Rule (1802-1890). Este pequeno e aparente insignificante episódio é descrito por Albert Aspey (1911-1998) na sua obra Por este caminho. A relevância do episódio reside na disponibilidade daquela biblioteca em receber tais obras – uma delas a pouco católica History of the Inquisition (1868) – numa época de tensão na cidade do Porto pela presença indesejada de protestantes. Chamou-me a atenção o apelido do 1.º bibliotecário que assina o dito recibo: Eduardo Augusto Allen. Que apelido inglês seria este? Tratar-se-ia de um anglo-português que, pelas suas raízes protestantes, estaria aberto a receber na Biblioteca Pública obras de discutível aceitação religiosa?

Eduardo Allen nasceu no Porto a 19 de Novembro de 1824. A mãe, Leonor Carolina Amsinck, era filha do cônsul de Hamburgo na cidade do Porto, e o pai John Allen (1781-1848), um reputado comerciante luso-irlandês que se destacou como combatente nas invasões francesas. Nascido em Viana do Minho, John recebeu no estrangeiro uma educação de elite e no regresso a Portugal assumiu-se como homem de negócios ligado ao vinho do Porto. Na sua prosperidade, John vai revelar-se um dos mais importantes coleccionadores de arte do século XIX português. A sua colecção começa a ser exposta em 1838 quando abre ao público o Museu Allen, composto por peças de diversa natureza, incluindo mais de seiscentas telas de pintura.

Eduardo Allen

Eduardo vai também ser educado no estrangeiro para depois regressar a Portugal e assumir a direcção do Museu Allen em 1852 – então denominado Museu Municipal do Porto – o qual dirige até à sua morte. Eduardo foi também proprietário e director do Colégio de Nossa Senhora da Divina Providência sediado na casa dos Allen e, tal como referenciado por Aspey, foi Director-Bibliotecário da Biblioteca Pública do Porto. Em 1863 foi admitido como membro da Academia de Ciências de Lisboa.

Fez parte de uma geração de descendentes britânicos que procurou integrar-se na cultura portuguesa, apesar de manter contactos familiares e comerciais com o estrangeiro. Prova disso é a adopção definitiva da forma portuguesa do seu nome e o casamento celebrado em 1858 com a portuguesa Belmira Rosa de Oliveira. – do qual nasceram dez filhos.

Pelo que se pode depreender a partir do nome dado ao colégio da Rua da Restauração, Eduardo Allen era católico romano, herdando a religião do seu pai John, um descendente de irlandeses católicos. É no seu testamento, lavrado em 1881 – dezoito anos antes da sua morte –, que podemos encontrar o seu testemunho mais fiel à Igreja Romana. Pela prosa apresentada e por responder à dúvida que tinha, vale a pena transcrever uma parte:

«[...] Quanto ao espiritual, declaro-me com todas as véras de minha alma que sou Christão Catholico Apostolico Romano, e como tal creio plena e firmemente tudo quanto crê e propõe para se crer a Santa Igreja Catholica Apostolica de Roma, em cujo grémio pela Misericórdia Divina nasci e espero morrer; e da qual peço a Deus permitta que nunca se aparte nenhum dos meus, o que espero obter por piedosa intercessão da Imaculada Virgem Maria Bemaventurada Mãe de Deus, a qual sob o seu glorioso e ternissimo titulo de Nossa Senhora da Divina Providencia procurei sempre fazer venerar com o mais enthusiastico e respeitoso affecto filial e gratidão pelos seus inumeraveis beneficios, e agora supplicantemente lhe encommendo minha alma no tremendo transe da morte.»

Registo do testamento com que faleceu Eduardo Augusto Allen, casado com Belmira Rosa de Oliveira, bibliotecário, ff. 50v-51.

A aceitação das obras que Guilherme Dias levou à Biblioteca Pública naquele dia 3 de Novembro de 1880 deve ser encarada como algo normal no Portugal liberal, ainda que se vivesse naquele tempo um ambiente de grande crispação religiosa. Para além da ocorrência citada por Albert Aspey, creio que não se conhecem mais referências a qualquer tipo de relação formal ou informal de Eduardo Allen com protestantes.

 

BIBLIOGRAFIA

Almeida, António Manuel Passos – “Contributos ao Estudo da Museologia Portuense no Século XIX“. Revista da Faculdade de Letras: Ciências e téncias do património. Porto. I Série vol. V-VI, (2006-2007), p.41.

Aspey, Albert. Por este caminho: Origem e progresso do Metodismo em Portugal no século XIX. Porto: Sínodo da Igreja Evangélica Metodista Portuguesa, p. 279.